quinta-feira, maio 24, 2007

Maria Bonita


Os cabelo nas venta da vida eu abro é na faca:
A vida me pesa é no bucho.


domingo, abril 22, 2007

Do outro lado do espelho


Teu rio é liso, é fundo.
Tuas águas fartas, lúbricas, espuma.
Vazas de mim, minha igual.

Do outro lado do espelho:
Um olhar cintila enevoada luz-mistério,
Um sexo tão delicado, delicadamente tão sexo.

Carnes rijas, sorrisos torpes.
Pequenês pálida e macia.

Em teus suspiros-sussurros, suspensos no tempo,
Contas-me noite a dentro
Segredos de sereias, fadas, princesas e borboletas de papel.
Tudo aquilo que em sonhos se vê.

Do outro lado do espelho:
Quem sou eu?
Quem é você?

terça-feira, março 27, 2007

Escuta o escuro do meu coração

Escuta, escuta o escuro do meu coração.
Bate, me bate calado, com força, apertado.
Escuta, escuta o escuro do meu coração.
Bate, me bate calado, com força, apertado.
Escuta, escuta o escuro do meu coração.
Bate, me bate calado, com força, apertado.
Escuta, escuta o escuro do meu coração.

Escuta o escuro do meu coração.
Escuta o escuro do meu coração.

segunda-feira, março 05, 2007

Delicadezas aquáticas


Em dias calados como este,
Sou a poeira que se levanta preguiçosa e quente do chão aguado pela chuva.
Sou a folha seca na areia,
A fruta vermelha da árvore retorcida,
A flor de um lilás delicado salpicada no mato.
Folhas, frutas e flores são mudas.
Sou a coruja-mistério que pia:
Ainda assim contraditória, de dia.
Outras vezes sou a barreira de algas moles e bailantes enraizadas no raso,
Impedindo um mergulho mais fundo.
Sou de tudo um pouco:
Alegria, esplendor, melancolia.
Hoje sou todas as coisas do mundo.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Cheiro inodoro


Agora dei pra procurar nele o cheiro da saudade.
Ando aspirando seu cheiro mais íntimo,
aquele que passa desapercebido, sem alguma densidade.
Aquele que já nem ele sente, por conviverem juntos desde sempre.
Não falo de perfumes, é cheiro além de um cheiro: quero O Cheiro.
Quero o cheiro que um cheiro tem.
Quero sufocar com esse cheiro inodoro, impregnar-lhe nas narinas da memória,
Pra que não me escorra entre os dedos como todo fim de história.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Instante natimorto


Hoje eu tô de cor tremida e desfocada.
Não tô querendo nada além de nada.
Hoje é dia de pijama sem mágica e sem graça.
Dia de dia ofuscado com trilha sonora de chiado.
Hoje sou um vulto de mim.
Hoje não faço nem questão de "mim".
Sombra sem glamour fantástico:
Sou o fim da fumaça, espalhada no ar apático.
Sou o sono do esquecimento, daqueles sem sonho dentro.
Sou o vento morno que desfolha as letras.
Sou espaço mudo e oco.
Agora com licença, vou ali morrer-me um pouco.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Dama de Copas


Vermelho sim.
Porque é ardência o que há em mim.
Ferve ao mínimo contato,
Físico e abstrato.
Vermelho é superdose latente.
É quente, urgente.
Vermelho jorra da minha alma pela boca, me inunda.
Habita minhas entranhas, corre nas artérias, palpita no meu corpo: cor fecunda.
Amarelo é vômito morno, laranja, covardia.
Toda cor aspira ser vermelho um dia.


segunda-feira, janeiro 22, 2007

Impressões


Agora eu era uma borboleta de asa quebrada.
Eu já era borboleta toda, livre de casulo.
Mas minha asa, quebrada.
Vivia entre flores e maravilhas fantásticas.
E era feliz e triste, admirando os vôos altos, trêmulos e vibrantes de outras borboletas coloridas.


Para a dor do oco não há nestesia.

Entenda, não me falta sensibilidade. Me sobra.

O mundo em mim fica num silêncio sensível e arrepiado quando marcado pelas intensidades imensas do mundo que não é meu.

Fico quieta, parada, admirada. Com medo de me mover para o segundo não me escapar. É quase como pescar. E eu que nunca pesquei nem peixe, nem segundo.

Às vezes frágil como asa de borboleta partida,
Às vezes forte como coifa sedenta de vida.
Orgânica.


E apaixonada por olhos de espelho. Cor indefinida e misteriosa de metal brilhante e reluzente de águas transparentes.

Agora entendo o significado escondido de um olho d’água. Nascente. Esplendor suspenso. Lâmina espelhada refletindo para o exterior águas de lençóis profundamente freáticos. Olho do fundo da terra, do duro da terra, do âmago da terra que vem olhar a superfície. Que vem molhar de lágrima a superfície.

Às vezes o que há de medo quebrado no fundo dos meus olhos tenta procurar nos dele resquícios de um futuro amor rasgado – rasgado como meia de seda rasgada, arranhada na pele, sem conserto nem disfarce.

Logo depois meus olhos fecham. E esses cacos doloridos inexistem. Se dissolvem no que é quente e liso do corpo dele.

Naquele colo, o que é casulo em mim se rompe em impressões contorcidas.

Naquele colo, o que é casulo em mim desnuda-se num vôo de mil borboletas coloridas.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Ballet esquisito


Acho que meu corpo nasceu pronto para amar. Acho que o tamanho do meu corpo já foi pré moldado a não caber. Não caber amores, danças, flores. Aqui de dentro vejo tudo trêmulo como se ventasse todo o tempo. Aqui de dentro tudo é grande. Algo me diz que meus pés já tinham potência de danças e vôos mesmo antes de aprender a andar. Tudo em mim reluz e cintila com uma música sempre presente, mas que nunca se fez ouvir. Deve ser por isso que gosto de me fazer girar, girar e girar com os braços bem abertos, com os braços bem abertos. Quando estou só. Porque só assim posso dançar meu passo. Aquele passo que ninguém me ensinou. Aquele passo cabeça solta que roupas fazem no varal. Aquele em que me estico toda, tentando tocar tudo além de mim, tudo além do meu centro. E quanto mais eu giro e fico tonta, mais parecidas ficam as coisas de fora com o que vejo delas aqui de dentro.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Palavras d'água


Quando a vejo, sinto pequeninos espasmos percorrerem apressados todo o corpo da minha alma.
O sorriso dela me mata. Eu ressuscito depois, mas por segundos estou morta. Morta parada impotente. Morta de frios. Morta de frios empoeirados que me sopram passados. Meus frios imaginários.
Percebi que a tristeza que me dá, é tristeza d’água. Não é tristeza de pedra quase raiva. É aquela que pinga, que enche, que transborda. E evapora sim, em seu tempo, no varal de dentro.
O que me desmancha não é ela. Mas é que ela encarna todo um passado que não pude ser. Ela é, para mim, a imagem de todas as outras elas. De todas as palavras que não pude escutar. De todos os lugares em que não estive, de todos aqueles sorrisos e caras de sono que não vi.
É que sinto meus olhos grávidos de amores e dores, insolúveis em lágrimas.
É que eu tenho cá dentro um amor tão grande, grande, que mesmo explodindo fora dos limites do meu corpo, quase que me sufoca!
É que eu quase me sinto ligada àqueles sorrisos e caras de sono por um fino fio brilho que nos sai do umbigo.
É que tenho vontade de lhes ser pão e mar. Passado e futuro. Talvez daí a minha urgência, da nostalgia de um passado já passado, do medo de um futuro ainda ausente.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Carta feita para nunca ser entregue

Que a vida é dura eu sei porque você me fez saber desde sempre que a vida é dura. Mas Maria, a vida pode ser dura o quanto for que eu ainda quererei permanecer mole. Sei que talvez não me entenda e que isso não lhe seja, nunca e ainda talvez, motivo de orgulho. Mas é que a minha moleza pode ser maleável, querida. Nunca quero endurecer, nunca quero deixar de escorrer. E sei que você também nunca quis. Sei que suas mãos, hoje tão grossas e traídas pelo cinza que há (e que não gosto) na vida, já tocaram delicadezas com toques suaves. E sei que ainda há de haver entre esses dedos brutos, vestígios de flores. Sei porque sei nos seus cabelos um ainda brilho vistoso, uma ainda vida e uma ainda esperança. Sei que seu ronco é acúmulo de supiros cansados. Sei que você é líquida e toda líquida aí por dentro do por dentro do por dentro de você. Assim como eu. Ou eu o sou assim como você é. Porque dos seus líquidos me originei, dos seus líquidos e das suas coxas. Do seu gozo, suor e sangue. E das suas lágrimas. Eu não admiro sua crueza, minha Maria. Mas eu admiro o que há por dentro e que sai sob seu consentimento com tanta facilidade dos olhos seus. Eu admiro suas lágrimas, seu queixo trêmulo, seus arrepios. É que você é dura de verdade por fora, mas ainda permite a saída de seus líquidos. E talvez eu também seja assim dura às vezes, como quando me enraiveço e enrubesço "dando uma lágrima ao mundo", ou ainda, quando penso ser frio um arrepio. Quem sabe, num dos últimos dias, eu a peça ajuda para saber diferenciar? E quem sabe ainda, eu até aprenda...

sábado, novembro 25, 2006

Insustentável leveza


Guardo em minhas mãos resquícios do cheiro de suas partes
Tenho a sensação de poder apreender com minhas mãos seu todo em partes
E enquanto quase dormia, sentir em meu corpo o reverberar de seus músculos a relaxar eu podia
O sono lhe pesava a pele e a consciência lhe esvaía
Evaporando-se por nossa cama a alma ía
Em silêncio sim.

Ao despertar-se, pesou-se sobre mim.
Em silêncio ainda assim.

Em súmula o ato
No corpo o peso, na alma o salto
Chegando ao teto, exaurindo o espaço

Ao desfalecer-nos, me fita a leveza
Pairando fluida, com as leis da gravidade a brincar
Misteriosa me sorri, arregalando-se em beleza
Zombando de minhas palavras que não a poderão jamais tocar.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Geléia de pérola



Ella tem nos cabelos laços de fita,
Anágua debaixo da saia de chita.
Ella cheira a perfumes baunilha e canela mescladas,
Colares de contas por sobre blusa rendada.
Ella tule, ballet silencioso de cetim.
Caixinha de jóia que toca música, pra guardar gota de chuva.
Ella é toda clara em neve açucarada,
Geléia de pérola nacarada.

domingo, novembro 12, 2006

Poesia de bolso

Desejos confessos ao pé do ouvido:
Rir-te com a boca do estômago,
Ninar-te no colo do útero.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Quero mais é me gastar


Eu quero mais é me gastar...
Gastar minha sola ao chão,
Meu tempo à toa,
Saliva em vão.
Eu quero mais é gastar minha juventude,
É surrar a mocidade,
Pra que quando se desbote em velhice,
Que seja por um bom motivo.
Eu quero mais é gastar minha meninice,
Pra que o tempo marque minha carne e o que me há além dela
Com boas lembranças boas de se lembrar.
E que seja por um bom motivo.
Pra que quando o fim interromper a história,
Tenha ela sido bem contada.
Pra que quando a morte me invadir a vida,
Tenha ela sido bem vivida.

Nunca me quero cansar de viver.
Quero mais é que me viva,
E que um dia,
Cansada a vida de mim,
De mim se esvaia.

E que seja por um bom motivo.

terça-feira, outubro 10, 2006

Sobre a saudade


A saudade é um parto ao revés.
É guardar tudo que foi, aguardando.
É amar grávido de amor.
É ele nascido, crescente, esperado.
São momentos relembrados, incubados.
Não congelados, porque saudade arde em fogo.
Sim derretidos, contidos no peito.
É suspirar,
Por entre suspiros,
Por um suspirar que virá.


domingo, outubro 08, 2006

Mimo


A calma escorre nas paredes
E um vento fresquinho invade as janelas
Enquanto a paz me acarinha a nuca
E me tranquiliza a alma
Seu som é leve
E me toma a casa
No balanço manso do ar...
Se espalhando quietinho
No meio do mimo molinho
Esparramado no sofá.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Sobre a nostalgia


Se é nostálgico quando,
No presente momento,
Se enxerga a tudo como se coberto por uma fina camada de névoa saudosa
Com textura de papel de seda transparente
Que não se vê,
Mas se sente.
Quando os sentimentos são não como sentidos,
E sim como lembrados.
Quase não tocados, de tão nuvem.
Quando se sente o que ainda há por vir, num misto de tudo que foi.
Como ser-se não se sendo,
Recordando um futuro,
Vendo as cenas do aqui num álbum de retratos...

domingo, outubro 01, 2006

Prosa p'ra lua


A lua lá
Só, independente
Esparramada entre as nuvens, preguiçosa...
Pairando superiormente
Brilhando mais que qualquer reles estrelinha...
Presunçosa!
Como se toda essa luz fosse sua!
Como bóia esburacada?
De longe nem parece pesada...
Mas ainda sozinha.