sexta-feira, agosto 31, 2007

Insecta


Caramujos viscosos lambem pausada e delicadamente meus dedos dos pés,
Enquanto bolhas de sabão flutuam em minha direção pra contar segredos-ploc.
Bebo plancton azul e num instante sou toda azul.
Mastigo flores celofânicas, mergulho em plasma flúor, vivo e vibrante.
Viva e vibrante...
Minha nudez é envolta por mil vespas amarelas, que tecem para mim um trêmulo casulo de papel-cetim.
Engulo lulas e bailo em metamorfose tentacular.
Sou girino, sou o tule das bétulas, sou planária, sou peônia, sou gerânio,
Sou do-ré-mi-fá.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Poesia corpórea


Quando comungamos nossos corpos
Num abraço quente,
Gostaria eu que não tivesse fim.

Sinto seu cheiro ardendo em mim,
E o gosto de erva na saliva morna,
Quando me beija assim...

Sinto o céu
Da sua boca,
Em minha nuca.

Suas mãos
Percorrendo minhas retas, curvas e voltas,
Pressionando meus quadris,
Seios e alma.

A respiração lenta e rápida,
Leve e pesada,
Úmida e quente,
Reverberando entre a gente,
Entre calmaria e frenesi.

Quero entrar pelos seus poros,
Saciar-me no teu peito,
Atingir o seu delírio.

Os lábios entre as pernas,
Os arcos ogivais,
As nossas digitais,
As suas costas largas,
Os lóbulos,
As pálpebras,
Todas as reentrâncias,
Todas as saliências.

Os licores interiores,
Embriagando noite afora,
Corpo a dentro...
Alma inteira.

O sol no centro do cosmos,
Você em mim,
A sua existência,
Na minha existência.

Os dentes,
A língua,
As pontas dos dedos.
Os braços,
Joelhos,
Dedos dos pés.

Um beijo,
Um sussurro,
Um devaneio.

Dentro de mim,
Dentro de mim,
Dentro de mim,
Profundamente em mim.

A luz
O som
O ar
A luz
O céu
O gozo.

terça-feira, agosto 28, 2007

Visgo e mel


Agora eu era toda desejo apertado no escuro.
Era grito estalado, no silêncio surdo entalado.

A coxa arrepiada e o mamilo apontado pra lá, onde mãos não tateiam nada.
O visgo secreto da amarula querendo ser torrente e sendo só discrição - aquela discrição timidamente safada que intro-metida no meio das pernas vaza.
O gemido sufocado, boiando no mar amorfo de vontades e vontades e vontades afogadas.

Um dia paro de escrever fumaça e rasgo logo o verbo.
Nada agora era fumaça: agora era tudo rim-pelve-veia-pêlo-poro-sangue-porra-visgo e mel.

Um dia, que vá tudo pro inferno e você será meu.